O rio

O rio

quinta-feira, março 20, 2008

Uma viagem atribulada...

Viajar pelo país tem os dias contados. Digo isto sem querer ser profeta da desgraça, mas porque o que vejo à volta me leva a crer que estamos mesmo com um pé no abismo.
De viagem para o norte, para matar saudades, receber colo e abraços de ternura, lá comecei o dia por encher sacos de viagem, contar as alminhas que levava comigo, e certificar-me de que nada faltaria, desde a escova de dentes, ao bebedouro da bicharada, passando pelos livros e calçado, sem deixar de fora rações animais e as de combate para nós.

Depois de ultimar tretas, desligar gás e arrumar tralha, trancar portas e janelas, não que haja algo valioso a levar, mas pronto, anyway... lá partimos rumo ao lugar que me traz as recordações poéticas de uma juventude paginada de cores e sonhos por viver... entre outros meio vividos.

Até atravessar o primeiro rio grande, nada de novo... depois começaram as dores de cabeça. Os gatos iam na frente, dentro de transportadora, de patas de fora, a miar de vez em quando, como a pedir para voltarmos para trás e assim poderem subir livremente às árvores.

O cão, tarado do caraças, mal entrou na "baignole" não parou de ladrar até adormecer. (digamos que levou tempo)... é alérgico a rodas e pneus, a aviões e pássaros, mete conversa com quem passa, por tudo e por nada. Mesmo com calduços, não cala a tramela. Um desassossego.

Santarém da minha desgraça. Parece sina... duas horas para chegar a Leiria... num pára-arranca infernal. Quinze horas. Música alta, vidros abertos, e fila na auto-estrada do Norte.
Que havia acidente, tinham escrito depois da primeira área de serviço e saídas possíveis... sempre Tugas!

Refilei que não ia pagar a portagem... que não era correcto... a certa altura ainda pensei em desligar o carro e esperar que a polícia aparecesse. Mas arriscava a levar uma trepa dos outros automobilistas e ... não convinha...

Depois deste interregno, lá marchámos um pouco melhor até... passar o Douro. VCI entupida e mais uma hora para andar 17 km. Depois disto e de largar 19 euros e uns trocados eu ainda me pergunto que país temos nós... É kafkiano, redutor, hilariante e estropiado.

Segunda-feira vou a uma repartição de finanças, porque me enviaram uma carta dirigida a um homem que eu não conheço, mas que vive comigo, pelos vistos, e como ele não deve ter sido cumpridor escreveram a falar em penhora. Lindo, né? Ainda me dirigi a uma repartição lá no sul, ma sa resposta foi interessante: -A senhora é que tem que resolver."

Soube há pouco que noutra repartição enviaram carta a um cliente para que pagasse às finanças em vez de pagar a quem devia ( o fornecedor), alegando que este último estava em dívida para com o erário público ou tesouro público ou o caraças. Foi-se a ver e era mentira e o bom nome do senhor foi posto em causa. Ando a ficar cansada de tanta asneirada e impunidade...

Boa Páscoa




Beijocas larocas directamente de norteland

russell watson and hayley westenra time to say goodbye

O Meridiano do Amor

Nas arrumações da Primavera, lá fui tropeçar num livro, desta vez de Eduardo Sá. Foi prenda de aniversário, não sei se do ano passado se do anterior, que eu para datas sou pior que as ventanias...
"Encosta-te a mim e deixa-te estar", Oficina do Livro. Enquanto se arrumam partes de nós, cá em casa, a mania é sentar no chão e folhear páginas, recordar e reflectir... Nada de novo, certo?
Tropecei então em páginas que me puseram de novo no trilho, embora com o tal sabor amargo e a sensação de que crescer dói como o caneco e que as redomas não servem para nada a não ser estropiar qualquer um e torná-lo atrofiado perante os pares. Afinal, a vida é mesmo uma selva. Eu não quero viver nela, mas não me restam alternativas... Custa como o caraças, não gosto disto... mas... cá está mais um degrau a subir.

"(...) - quando nos repartimos por muitas pessoas, cada uma traz curvas novas aos nossos horizontes. E isso é bom. Porque sempre que chegamos aonde o mundo se perde de vista percebemos que nunca se conhece até às últimas consequências. (na verdade, nem até às penúltimas...) E porque, afinal, crescer por outras latitudes nunca nos transforma em pessoas equilibradas mas habilita-nos a crescer com os desequilíbrios da vida(...). [...] As pessoas com quem crescemos não acompanham para sempre o nosso crescimento. Muitas vezes perdem-se de nós. [...] " (p.224/5)

"(...) o mundo interior não divide as pessoas entre as estranhas e as da família. [...] mas entre os viajantes e os aventureiros(...) como pirilampos que nos dão uma luz e, de seguida, nos desassombram com outra decepção.
Os arquitectos (...) rasgam avenidas ou desvendam planaltos. E guiam-nos. Trazem consigo revoluções tranquilas(...) Os alquimistas(...) abrem persianas na nossa alma, dão-lhe sol e transformam-nos para sempre. (...) percebem que aquilo que distingue as «boas prendas» «dos presentes» são os laços. E nunca nos perguntam se estamos tristes ou aflitos. Antes dizem: «Chega-te a mim... e deixa-te estar.»" (p.228/9)

Eduardo Sá,Chega-te a mim e deixa-te estar, Oficina do Livro,1ª edição, Agosto 2005