O rio

O rio

sábado, julho 05, 2008

Ouvi contar que Outrora - Ode Ricardo Reis/Fernando pessoa

Ouvi Contar Que Outrora

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao refletir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predileto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida.
Os haveres tranqüilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

Ninguém a Outro Ama : F. Pessoa

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.

Bom Sábado

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas, Sorte se a sorte é dada.


Site de poesias coligidas de Fernando Pessoa

quinta-feira, julho 03, 2008

Bom resto de semana...

A malta quer ir a banhos e o vento aparece teimoso...


Um dia destes, lá cometi a loucura de ir até à praia, por volta das seis da tarde, que isto por aqui é sempre quase ao lusco-fusco. Derretemos com o calor e não convém.
Pensava eu que a ia encontrar deserta e ... bem, deu para esticar as toalhas, o que não é mau de todo. Vimos corridas de bebés a gatinhar ( uma delícia), miúdos pequenos a brincar com o sonho e a gritar que estava ali um tubarão... e a paz reinava. Eis que surge um Serra da Estrela bem gordinho, pelo que não andava à procura de dono.
Um monte de areia empinava-se junto à água, resquícios de buraco feito por um matulão que procurava, segndo a nina, petróleo. Eu ainda disse que se calhar procurava era um osso ou uma passagem para a China, mas ela não acreditou.
Então, voltando ao cão, aponto para ele e digo:
- Vai aliviar-se. Queres ver: 1...2...3
E tungas, uma mijadela de cão na areia da praia. Indecente, né? É Tugaland no seu melhor. Os bebés lá brincavam alheios àquilo. O bicharoco foi-se embora calmamente. Ele nem é culpado. Mas bem gostava de ter dado de caras com o cromossoma do dono!

Bom restito de semana... por aqui ainda se trabalha e bué! Beijocas larocas.

Una tonteria el amor

Una tonteria... amar


una tonteria amarte
quererte y nunca saber donde estas
sentir la sangre se marchando como un huracan
saber que estas lejos y jamas el camino sera lo mismo